Dizem que os amigos são a família que escolhemos ter. Não é verdade. Não escolhi ser Flamengo, não escolhi torcer Mocidade, não escolhi gostar de nenhuma das minhas bandas preferidas ou qualquer uma das minhas paixões. No máximo a gente inventa, mas acho que nem isso. E sabe qual é a resposta? Eu não sei. Eu não faço a menor idéia do que seja.
Alguns vão pensar em destino ou conspirações interpl...anetárias. Tudo bobagem. O que sei é que essas coisas não são feitas de escolhas pensadas. Não existe uma feira das paixões. Não escolhemos nossos amores como escolhemos um abacaxi maduro. Não há racionalidade nenhuma nisso.
Por razões lógicas, jamais escolheria ter grande parte dos meus amigos e a minha cara mal-humorada jamais faria de mim uma escolha óbvia. Pela razão, só escolheríamos boas pessoas e você deve estar rodeado de amigos que não necessariamente são exemplos de conduta ética ou moral.
Talvez eu não fosse uma escolha lógica da Camila. Não gostamos das mesmas músicas, não temos os mesmos critérios de beleza e discordamos politicamente em casos específicos. Camila jamais escolheria ter um amigo chorão, canceriano e maltrapilho. Não sei o que nos uniu da mesma forma que não sei o que diabos me une a qualquer um dos que eu amo.
Não escolhi ter a Camila, mas escolhi tê-la como irmã, confidente e ouvidos. Escolhi ter o colo, os abraços e os seus conselhos. Escolhi contá-la o meu melhor e o meu pior.
Hoje um monte de gente que não escolheu a Camila como amiga, sofre por não poder ter a única escolha que todos nós gostaríamos de ter: ela não ir embora.
Não terei saudades dela e não ficará nenhum pedaço da Camila no meu Coração. Ela não merece isso. Ela não merece ser partida. Não sei o que dela ficará comigo em Fortaleza. Não sei o que dela Fortaleza terá. Hoje não sei bem como agradecer tudo o que esta criatura fez por mim nos últimos tempos. A única coisa que posso dizer é que te amo. Mesmo jamais tendo escolhido um dia ter te amado.
Mamãe vendia salgadinhos e doces na feira do Conjunto Polar. A feirinha começava sábado de manhã quando eu a ajudava a fechar as coxinhas e esperava a panela para passar o dedo no restinho de cobertura de chocolate. Estendia a toalha branca de renda sobre a mesa e tentava arranjar as bandejas de alguma forma atrativa para o público.
Não havia uma doação minha. O que eu fazia por mamãe não era vo...luntariado. Ficava sentada na calçada para que as vendas fossem um fracasso. Torcia para que sobrasse todo o bolo de laranja e nenhum pedaço de torta fosse vendido. Eu sabia que as sobras sempre acabariam na minha barriga. Era o meu pagamento pelo serviço prestado.
Mamãe jamais soube que eu a sabotava secretamente. Nunca reparou a minha felicidade malvada ao me lambuzar com calda de chocolate e frango desfiado. Foi assim por meses até que as vendas começaram a crescer. Foi aí que mamãe resolveu aumentar a produção que, como muito sucesso, era toda escoada para casais apaixonados, velhinhos faceiros e meninos gordinhos.
Mas o sucesso da mamãe afetou profundamente o meu banquete ao fim da feira. Passei a ter que implorar por um pedacinho de doce ou um toquinho de torta de queijo. Mamãe nem sequer justificava. Tangia o filho pidão com um fino desdém.
Corria para o meu quarto chorar o capricho não atendido. Chutava a cama do meu irmão, vomitava os poucos palavrões que conhecia e dormia emburrado enrolado na rede. Foi ali, por conta de dois pedaços de bolo mole, que percebi que eu não podia ter tudo que eu queria.
O problema é que você descobre que não pode ter sempre o canudinho misto ou a torta de limão quando quiser, mas outros doces e salgados sempre aparecem. Outros doces e salgados sempre aparecerão. E perder a birra é um processo tão doloroso... Um processo cheio de chutes na cama e palavrões soltos em quartos vazios. Às vezes me sinto como um pivete que se aproxima de uma mesa cheia de guloseimas e que tem sua inocência reprimida por uma tia chata e dois tapinhas na mão.
O problema é que, por muito tempo, eu fui um malcriado. Nunca me deixei me reprimir por tapinhas de parentes ranzinzas. Minhas tias desconheciam as técnicas avançadíssimas para roubar beijinhos e brigadeiros com precisão cirúrgica. Mamãe nunca soube que eu secretamente apanhava pedaços de bolo fofo para comer escondido no meu quarto.
Então fiquei velho e perdi a coragem de ser malcriado. Cansei de construir estratégias mirabolantes para conseguir o que eu quero. Alguns chamariam isso de amadurecimento. Eu chamo de uma grande, imensa e bela burrice. Sonho todos os dias com a possibilidade do moleque que luta até as últimas conseqüências voltar algum dia. Tudo o que meus estúpidos 28 anos de amadurecimento me trouxeram foi a coragem de me enrolar na rede e esquecer. Tudo o que os os meus estúpidos 28 anos me trouxeram foi a certeza de que secretamente eu me saboto.
Nunca me senti tão triste por todos os bolos e salgadinhos que jamais roubei. E esse talvez seja o meu mais tolo capricho.
Teté tinha pele de sessenta e cinco anos e óculos de oitenta e quatro. Os mais antigos não sabiam ao certo quem havia chegado primeiro – se Teté ou o Bairro. Nunca houve registros oficias de namorados de esquina, filhos perdidos, desavenças com os contatos de muro ou dívidas no mecardinho da esquina.
Jamais encontrei Teté sóbria. Sua condição de bêbada profissional era tão naturalizada que os ma...is desavisados poderiam confundir cinco doses de Whisky com a caducagem da velhice. Não era. Seus poros exalavam bafo quente de álcool que não lhe permitiam nitidez de mais de três passos. Por vezes caia, mas levantava com a superiodade de rainha levada ao chão por inveja. Desprezava a areia nos joelhos com um farfalhar qualquer.
Teté era uma colecionadora. Passava os dias catando histórias do chão. Interessava-se particularmente por artefatos com origem conhecida. Era hábil em catar restos de namoros, brigas conjugais, desesperos das provas de fim de ano ou eletrônicos substituídos por uma nova condição social. Como em um gabinete de curiosidades do século XVI, Teté mantinha a história da vizinha inteira em prateleiras organizadas por casas, do número 401 ao 431.
Meus irmãos faziam uma aposta mórbida sobre quantos anos ainda sobreviveria. “Desse ano não passa”, disse o mais otimista. Mas Teté era discreta e sobreviveu por dez anos e três garrafas de Martini. Morreu em dia de Sílvio Santos de um maio qualquer. Foi enterrada torta, feia, bêbada e vestida com suéter azul. Não houve choro, lamento, remorso ou despedida.
Parentes distantes apagaram toda a sua coleção sem dó. Sapatos voltaram a ser sapatos, copos voltaram a ser copos, brincos voltaram a ser brincos. O memorial da rua virou lixo depois da queda as cinco e meia e parada cardíaca as cinco e trinta e três.
Dia desses me peguei pensando em Teté. Estava torto, feio, bêbado e vestido com três noites mal dormidas. Pensei no que de mim ela deveria ter. Pensei quais seriam as relíquias da minha vida que estariam instaladas na prateleira do número 411. Jamais soube e jamais saberei. Talvez Teté seja aquela que melhor compreendeu a minha vida até hoje.
Lamento por não tê-la mais na vizinhança. Lamento porque agora não me importo em deixar os pedaços da minha história espalhados pelo chão. Teté faria a festa com uma prateleira cheia de quinquilharias descartadas ao fim de tarde. Talvez bebêssemos algumas doses de conhaque entre conversas sobre meias, fones de ouvido e lençóis sujos.
Sou publicitário por indecisão, professor por gosto, cineasta desestimulado por aborrecimento, bêbado por conveniência e besta por genética. No final das contas foi tudo escolha minha. Meio que fui tentando a sorte. Todo mundo passa os anos jogando “par ou ímpar” com a vida. Não havia como ser diferente.
A única coisa que me fugiu, e ainda foge ao controle, são meus nomes. Nasci José por promess...a. Cresci Bruno por erro. Fiz-me Zé pelos amigos. Junior por parentes confusos.
O primeiro José estava para nascer em 1982. Foram tantos traumas vividos por mamãe que José I só chegou ao oitavo mês. Médicos alertaram para os riscos de uma nova gestação, mas a teimosia da Dona Elza não a deixou desistir. Foi aí que a família recorreu ao pai do menino Deus e José virou meu santificado primeiro nome. Como na música do Tiririca.
José é um desses nomes carentes. Mais do qualquer João ou Joaquim, José sempre fica choramingando pedindo um Carlos ou um Tiago para lhe completar. Por conta disso, houve uma batalha criada com lista de trezentas combinações de José com qualquer coisa. José Felipe, José Henrique, José Afonso, José Astrogildo. Mãe e madrinha votaram. Com placar apertadíssimo de 2 x 0, José Bruno ganhou.
Por descuido da madrinha e pressa da Dona Elza virei um adjetivo. Sim, senhores! Bruno é um adjetivo. Vejamos: “bru.no: adj (frâncico brûn, via provençal bruno) 1 Escuro, sombrio. 2 Pardo. 3 Infeliz”. Você pode aplicar Bruno em frases como “Ela está meio Bruno hoje” ou “o dia está Bruno em Fortaleza”. Aí eu lhes pergunto: que tipo de mãe colocaria o nome do seu filho de Bruno? Resposta: a minha. A minha e de todos os Brunos que conheço.
Passei anos rejeitando meu próprio nome. Eu, ser tão empenhado em ser do contra, com o nome mais popular do país gritando no meu RG. Até que mudei um pouco a perspectiva. De alguma forma a vinda do primeiro José foi abortada para que eu tivesse a oportunidade de estar aqui. Alguém lá em cima deve ter chegado à conclusão de que eu precisava mais. E eu não consigo ver honra maior. Foi então que decidi me empenhar na tentativa de ser o melhor José do mundo dentre todos os 5 milhões de Josés do mundo. Meu irmão Zé que jamais nasceu precisa ser honrado. Sobre o Bruno, quem se importa com a porra de um adjetivo?
Comecei a estudar o cineasta de nome impronunciável, Zbigniew Rybczynski, não por conta de uma paixão, mas pelas provocações que o cinema deste polonês me causava. Com o passar de todos esse anos, fui olhando para o trabalho de Zbig sem o olhar chato e burocrática de quem precisa escrever algumas páginas no fim do semestre. Resultado: meu objeto sem paixão virou um dos meus grandes amores cinematográficos.
Disponibilizo a seguir um pequeno fragmento do meu texto escrito em 2007 para o meu trabalho de conclusão de curso.
Eu poderia falar da relação passado-presente na obra do cara, sobre o Zbig como um Méliès contemporâneo, sobre cada um dos vídeos dele... mas seria bem chato. Fiz isso aqui só para fazer você procurar por aí pelo senhor Rybczynski. Quem se interessar pelo cara, manda e-mail que envio minha monografia.
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Zbig nasceu em 1949 na cidade de Lodz. Apesar do seu nascimento coincidir com o período do pós-guerra, jamais fez referência a questões ligadas a esta temática em seus filmes, como fez o também polonês Andrzej Wajda em obras como Cinzas e Diamantes (Popiól i diament, 1958) ou a outras questões políticas, com exceção de The Discreet Charm Of The Diplomacy (1984), em que faz um irônico banquete com políticos.
Após mudar-se para Varsóvia, concluiu o high school na School of Fine Arts, onde teve aulas de pintura e seus primeiros contatos com técnicas de composição, utilização de cores e texturas. Zbig trabalhou ainda como animador para a Miniature Film Study, momento em que iniciou o seu interesse pelo cinema, especialmente aquele ligado às animações gráficas.
Foi somente com sua entrada na Lodz National Higher School of Film Theatre and TV que Zbig pôde realizar os seus primeiros experimentos cinematográficos. Suas primeiras realizações, Kwadrat (1972) e Take Five (1972), possuem uma forte influência da sua aproximação inicial com a pintura.
Após sua graduação, participou de dois projetos paralelos. Primeiro tornou-se membro do Warsztat Formy Filmowej, um grupo de artistas poloneses que desejavam criar arte de vanguarda na Polônia da década de 1970. Neste grupo, o cineasta pôde participar de três filmes de Andrzej Baranski, um documentário de Wojciech Wiszniewski e da produção Dancing Hawk, de Grzegorz Krolikiewicz. No mesmo período, cooperou com o estúdio Se-Ma-For: Plamuz (1973), Zupa (1974), Nowa ksiazka (1975) e Tango (1980).
Zbig lecionou na Áustria entre os anos de 1977 e 1983, período em que realizou Weg Zum Nachbarn (1976) e Mein Fenster (1979). O cineasta ainda participou de algumas produções para a TV austríaca e colaborou com o diretor Gerald Kargl no filme Angst como diretor de fotografia, editor e co-roteirista.
Apoiou e participou do Movimento Solidariedade, que culminou com a decretação da lei marcial na Polônia, no ano de 1981, o que fez com que pedisse asilopolítico na Áustria. Na mesma época, Zbig recebeu um Oscar de Melhor Curta de Animação por sua produção Tango. Após o prêmio, o diretor decidiu mudar-se para os Estados Unidos com sua família, residindo na cidade de Nova Iorque.
Não demorou muito para que o cineasta se aproximasse de produções televisivas. Nos três primeiros anos em solo americano, Zbig participou de mais de trinta vídeos clipes e de produções para redes de televisão como a NBC, para qual criou The Discreet charm of Diplomacy (1984) eThe Day Before (1984).
A partir de 1986, passou a utilizar a tecnologia de High Definition em todas as suas produções. Com a fundação de sua produtora em 1987, a Zbig Vision Studios, criou Steps (1987), The Fourth Dimension (1988), The Orchestra (1990) e Kafka (1992), obras que o fizeram ter maior reconhecimento internacional, algo que não acontecia desde Tango.
Em 1992, fechou o seu estúdio e mudou-se para a Alemanha, onde trabalhou no Centrum für Neue Bildgestaltung (CBF) e Kunsthochschule für Medien, entre os anos de 1994 e 2001.
No final de 2001, Zbig retornou para os Estados Unidos, dando continuidade às suas pesquisas sobre novas tecnologias cinematográficas. Em Los Angeles, onde reside até hoje, tornou-se membro do Ultimatte e iMatte, empresas que trabalham com tecnologias no campo da imagem. Atualmente, trabalha em um novo projeto chamado “The Short History of White People”, em parceria com o escritor e jornalista Eli Barbur.
Nas obras deste realizador, há uma aproximação com o que Gunning denomina de “cinema de atrações”, em que Méliès era o grande mestre. Temos no cinema de Zbig uma postura semelhante aos dos primeiros filmes: uma experiência não familiar, imprevisível e que não busca ser realista nem narrativa (do ponto de vista da narrativa clássica). O cineasta é comumente acusado de fazer apropriações de procedimentos deste tipo de cinema do início do século passado. Mas poderíamos afirmar que Rybczynski apenas faz uso de técnicas e procedimentos que já deveriam estar “superados” ou “esquecidos”? Sua obra está longe de representar uma involução ou regressão da linguagem cinematográfica. Pelo contrário, reforça a idéia de que não devemos pensar em uma separação completa entre passado e presente, tampouco que existe um progresso na arte cinematográfica, que atingimos uma linguagem ideal e final.
Rybczynski não atua no passado, tem consciência do seu tempo, das potencialidades e limitações da sua época. A tradição cinematográfica fornece bases para a criação de obras inventivas, não realizando uma simples apropriação ou retorno.A tradição funciona como elemento propulsor da criação, que não aponta somente para o uma época distante, mas também para o futuro. Sua obra é tão contemporânea como a de qualquer outro realizador da sua geração.
Grandes obras:
Tango – O filme mais comentado, o do Oscar, o que todo estudante de cinema assiste no primeiro semestre de faculdade. “Que povo mal recortado!”.
Media – “Como é que ele fez essa porra?”. “Ah, isso aí é claramente uma cópia do Chaplin...”
The Orchestra – “Ihhhh, Sokurov...Tu copiou o cara...”
Kwadrat – Nicotine, valium, vicodin, marijuana, ecstasy, and alcohol.
NOTA: texto escrito em 2006. Perdão pelos erros e equívocos. Não mudei nada por respeito ao bruno de quatro anos atrás.
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Darren Aronofsky é estranho. Dos seus experimentos iniciais não podemos destacar nada. Absolutamente nada. Os curtas realizados durante seus estudos em Harvard e no American Film Institute são falhos em quase todos os aspectos. Embora possam gerar algum tipo de riso, não dão nenhum sinal do cinema que Aronofsky faria anos depois: “frio”, matemático e calculado. Nem mesmo o humor sobreviveu. No Time (1994) e Fortune Cookie (1991) são cheios de cacoetes típicos das produções em vídeo das décadas de 70, principalmente as feitas para a TV. E o cineasta parecia não estar muito preocupado em subverter ou reinventar qualquer coisa. Desse ponto de vista, suas produções são completamente descompromissadas.
Não é possível ver uma influência clara nestes primeiros trabalhos. Talvez de alguns vídeos do Norman McLaren, mas são apenas ecos. Como a Protozoa e o próprio cineasta não liberam os outros dois curtas desse período, Supermarket Sweep (1991) e Protozoa (1993), não podemos fazer uma completa generalização. Uma pena não ter acesso principalmente ao Protozoa. Neste vídeo, produzido como sua tese de formatura no AFI, Aronofsky desenvolveu as principais técnicas de filmagem que utilizaria em seus dois primeiros longas.
Para o nosso bem, há dois artistas bem distintos em uma época bem curta. O cineasta parece ter sofrido de algum tipo de envelhecimento precoce que não lhe deu rugas, mas que lhe trouxe sobriedade.
Muitos consideram Requiem for a Dream sua obra-prima. Quando vi este filme pela primeira vez no cinema, em 2001, lembro de ter ficado completamente tonto, destruído e profundamente comovido com as personagens. Hoje o considero um filme menor do que ele me pareceu na época. Aronofsky estava em Requiem testando suas potencialidade e a do próprio cinema. Um risco que poderia causar exageros ou imagens sublimes. E Requiem está recheado das duas coisas.
Para mim, π é sua grande obra. Curiosamente o seu primeiro longa após todos os desastres cometidos em Harvard e no AFI.
Para este filme, Aronofsky contou com a forcinha de amigos que dividiram os custos de produção em troca de um reembolso posterior. Deu certo. Os amigos foram reembolsados e Aronofsky saiu consagrado no Sundance Film Festival.
“π” equilibra perfeitamente a inquietação de um cineasta novato tentando (apressadamente) construir um estilo próprio e a sutiliza que compete aos mestres com anos de estrada. A tal hip-hop montage e a snorricam são usadas de forma bem menos artificial que em Requiem e a fotografia de Matthew Libatique consegue a proeza de criar locações externas claustrofóbicas, usar a saturação de imagens de forma criativa e planos improváveis que fogem da estética dos vídeos clipes, o que seria uma banalidade.
No início de “π”, Max Cohen narra um suposto trauma de infância:
“Quando eu era criança, minha mãe disse para não olhar para o sol. Mas quando eu tinha 6 anos, eu olhei. Os médicos não sabiam se eu voltaria a enxergar. Fiquei apavorado, sozinho naquela escuridão. Devagar a luz do dia penetrou através das ataduras e consegui vê. Mas algo mudara dentro de mim. Naquele dia tive minha primeira dor de cabeça.”
Ao final do filme, quando Max tem finalmente a consciência do real significado da seqüência numérica descoberta, é levado a um cenário completamente tomado por uma luz branca. Lá, tem finalmente a consciência da sua própria estrutura. Olha novamente para o Sol (Deus). Cega. Definitivamente, algo mudara em Max. Definitivamente, algo mudara em Darren Aronofsky.
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NOTA Posterior:
Continuo achando π o melhor trabalho de Aronofsky, mas tenho muita simpatia por O Lutador, um salto gigantesco após Fonte da Vida, o filme que não deu certo.
Muitos temerosos e raivosos com sua direção em Wolverine 2. Darren já deveria ter dirigido uma obra baseada em quadrinhos desde os boatos sobre Ronin e Batman... Apesar de fazer parte do time dos que detestaram a idéia, ainda acredito que o diretor tem talento suficiente para nos surpreender.
PS: Porra, Darren! O que tu fez com a Rachel Weisz? Era a Rachel Weisz, cara....
Odeio críticos de arte da mesma forma que odeio café. Provocam enjôos, ânsia de vômito, são nojentos, fedem e me tiram o sono. Eu confesso que tenho particular repulsa por críticos de cinema. Não que eu acredite na superioridade textual, cultural ou intelectual dos entendidos de outras artes. Como sou um ignorante sobre qualquer outra forma de produção cultural, sinto-me mais confortável de confrontar os sábios da cinematografia mundial.
Agora deu para todos eles cuspirem revolta com a não vitória de Avatar no Oscar. Não entendo. Realmente não entendo. O Pedro Martins Freire (que acredita que Avatar é o maior filme da década) saiu jogando praga contra a Academia e profetizando o fim de Hollywood. O perito em vinhos Rubens Ewald Filho disse ter a Academia dado um “tiro no pé!”
Sim, senhores. A crítica que sempre cuspiu que a Academia nunca deu bola para a “arte” ou “qualidade artística”, agora se revolta com os acadêmicos que não consagraram a indústria. Não foi um tiro no pé da Academia. Foi um tapa na cara dos críticos. Vejam só: imaginem o que é prêmio que sempre honra grandes bilheterias (alimentando assim o ódio dos críticos) “repentinamente” considerar como melhor filme uma produção que TODOS os mesmos críticos disseram ser maravilhoso?
Então, os chatos se juntam e, numa virada suja, passam a defender fervorosamente o Oscar como prêmio da indústria. Vai entender...A vitória de Guerra ao Terror continua sendo um prêmio completamente americanóide. Não compreendemos esse “delírio coletivo” sobre Guerra ao Terror pelo simples fato de que não somos americanos.
Não haverá desmonte da indústria, não haverá uma recessão de astros, não haverá uma guinada para a produção independente. Nada disso. O Oscar é apenas uma dentre tantas outras peças que compõem o cinema americano. E posso garantir que bilheteria e arrecadação continuam sendo mais importante que qualquer prêmio. E disso James Cameron e seus produtores não podem se queixar.
Delírio coletivo é esse Avatar. Um encantamento tolo diante de uma nova técnica. Crianças abobalhadas com um brinquedo novo. Guerra ao Terror não é o melhor filme do ano, mas é infinitamente superior artisticamente a essa Sessão da Tarde criada por Cameron. Não é disso que vocês gostam, senhores críticos?
Quentin Tarantino é para os cults-nerds-descolados o que Glauber Rocha é para os feios-chatos-intelectuais: um ser intocável, inquestionável e supostamente genial. Glauber devia viver rodeado de gente igualmente insuportável e nem devia lavar os cabelos. Tarantino deve falar sem parar, citar dezenas de bandas e livros que ninguém conhece e se achar um ícone.
Tentarei explicar melhor o meu ódio por essa divindade a partir do conceito de “espectador Homem Simpson” cunhado por Willian Bonner. Tarantino deve ter a mesma expectativa diante do seu público que Bonner tem diante do seu telespectador. No lugar de uma rosquinha devorada aos montes, estão alguns gibis e um mp3 player cheio de músicas que o Homer Simpson original nunca compreenderia. No lugar da TV, um computador portátil. O Homer Nerd é ávido por demonstrar sua cultura geral diante dos tolos de nível médio.
Cabe aqui apresentar outro conceito dessa vez criado por mim mesmo: o conceito de “metáforas justificadoras”. Diante de um filme “pop”, “pipoca”, “sem cérebro”, “sem sentido”, “sem explicação”, “sobre o nada”, os críticos cinematográficos adoram usar a tática das metáforas justificadoras para explicar o porquê de terem simpatizado com a produção. Funciona assim: tudo na verdade é uma grande metáfora de alguma coisa. Exemplo: Por se passar dentro de um Shopping, Madrugada dos Mortos usa a história de zumbis para fazer uma metáfora sobre o consumo desenfreado da sociedade capitalista. Pronto. Agora não vai ser feio você dizer numa mesa de bar ou no jornal que adorou Madrugada dos Mortos. Aliás, críticos de cinema adoram encontrar metáforas em tudo.
Tarantino é comumente apontado como sendo um cineasta que utiliza uma estética pop para apresentar uma metáfora sobre a nossa cultura, tradições e vida moderna. Não senhores, Tarantino não faz metáfora de porra nenhuma. Tarantino não é antropólogo. Suas histórias são banais, seus diálogos são vazios e seus filmes são sobre nada. O nada, o vazio e a banalidade não são metáforas sobre a superficialidade (ou qualquer outra coisa). Eles simplesmente são. O nada não necessariamente é uma metáfora sobre o nada. Ele pode simplesmente ser o nada.
Daí Tarantino nos coloca diante de uma cena super longa em que várias garotas conversam sobre nada em um carro (À Prova de Morte). Muitos apontarão 300 citações pops em um diálogo estúpido. Outros apontarão milhares de pequenas metáforas. Eu vejo o nada. Recortar um fiapo de diálogo sobre sexo não faz disso algo especial. Se eu filmasse a Raquel e o Fantine conversando sobre Gays Famosos, teria uma cena muito mais inteligente, pop e interessante. Como não sou o Tarantino ninguém veria citação pop nenhuma, metáfora nenhuma e inteligência nenhuma.
Toda pessoa para ser digna de ser uma pessoa deve necessariamente odiar sem motivos racionais e ter preconceitos sem fundamentação. Eu, por exemplo, odeio Recife, odeio estudantes de estilismo, odeio secundaristas, odeio acordar antes das 8 e odeio pessoas felizes em demasia. Tenho um preconceito inexplicável por pesquisadores/artistas que se vestem de forma estranha, por instalações artísticas, coletivos artísticos e jovens cineastas cearenses. No caso do Tarantino tenho um punhado de razões para odiá-lo. O problema é que tenho uma quantidade igualmente significativa de motivos para amá-lo. Será que sou um Homer Simpson Nerd enrustido??
Pronto. Essas foram as duas coisas que aprendi até agora no meu mestrado. Não agüento mais essa chatice de ter que compreender o pensamento ocidental. Prefiro o pensamento ocidental do Quake 4 e do Mario World ao pensamento ocidental de Nietzsche e Foucault. Só pessoas feias e chatas preferem Deleuze, Chartier, Baudelaire e afins. Eu prefiro o Perez Hilton. Ele sim representa o pensamento ocidental contemporâneo. Prefiro a JK Rowling que, como diz a Raquel Thomaz, assume que escreve ficção. Estou cansado. E não pensem que falo isso por me sentir superior a todos esses grandes pensadores. É justamente o contrário. Sou uma besta estúpida incapaz de ter um pensamento crítico sobre qualquer parágrafo escrito por um grande pensador. E não há nada que me faça ter mais ódio da academia do que a magnífica aula de didática.
Eu sempre digo que há os que gostam de comer fezes durante o sexo, há os que são masoquistas, há os que gostam de Teatro Mágico e há os que gostam de aulas de didática. Na minha sala há uma porção deles. De pessoas que gostam de aulas de didática e muito provavelmente que gostam de fezes e Teatro Mágico. Eu que devo ser masoquista de suportar durante quatro horas (que podem se transformar em 5 dias psicológicos) uma aula cheia de dinâmicas de grupo, discursos cheios de afeto e experiências inesquecíveis.
É duro ter que acordar 7 da manhã para começar o dia fazendo desenhos com canetinha colorida em um papel branco. É doloroso olhar para o rosto dos comedores de fezes e descobrir que todos eles estão maravilhados com essa experiência lúdica. Não amigos. Não fui feito para isso. O que mais me irrita é saber que depois de tantas discussões e afetos todos farão o que bem entenderem em sala de aula.
Eu me sinto um puto na aula de didática. Sinto-me um puto por ter que passar por isso por conta de uma bolsa miséria.
Hoje, senhores, eu sou um puto que sabe pintar em um papel branco e que muito em breve pode estar comendo merda.
O bom de ter um blog que ninguém lê é que nunca vou sofrer com comentários contrários ao que escrevo. Se tem uma coisa que odeio é quem não concorda comigo.
I – Juro que estava aqui tentando buscar argumentos para falar mal do Cidadão Instigado. Esse surto coletivo de elogios ao Fernando Catatau está me causando dias desconfortáveis.
É difícil suportar que o nosso sotaque tosco e insuportável seja jogado em nossa cara. É complicado ter que seguir uma cartilha ou manual de instruções para ouvir uma banda. “Para ouvir Cidadão você deve esquecer métrica, poesia clássica, modernidade, vocal afinado etc etc.” Ou seja: basicamente você deve esquecer que eles são uma banda. E não me venham dizer que o barato são as letras simples e sem frescura poética. Meu caro, você conhece algum grande escritor ou poeta famoso por sua simplicidade? Não, não existe. Nenhum artista é digno por ser comum.
O problema é que lá estou eu cheio de tomates na mão, cheio de vontade de gritar um “Ieiiiii”, cheio de vontade de dizer “mais uma banda cearense horrível”. Daí eles começam a tocar e sinto ódio por não ter argumentos para jogar um tomatinho sequer.
O barato do Cidadão é que eles são em parte o que nós somos. Enquanto quase todas as bandas desse lado do Brasil insistem em acreditar que estão fazendo música em Londres, Catatau faz música em Canoa Quebrada.
Não é fácil escutar “massa” em uma canção. Não é fácil ouvir nosso sotaque agudo e anasalado.
Não adianta. Mesmo o carinha que se veste de Inglês tosco, mesmo o carinha que nunca ouviu falar de Humberto Teixeira e Belchior, mas conhece a obra completa de Tom Waits e Johnny Cash, mesmo esse, irá soltar em algum momento do dia um “abestado” ou um “ei, macho!”. Ser cearense pode ser dolorido para alguns, mas é o que somos.
II – Não sei bem o porquê, mas odeio Recife. Passei carnavais inesquecíveis lá, mas ainda assim odeio Recife. Adoro repetir “Odeio Recife” pra todo mundo. É quase um bordão. A cidade é feia, suja, cheira mal, é menor que Fortaleza (embora todo recifense tenha a ilusão tola que não) e as pessoas não sabem explicar qual ônibus pegar. Apesar dessa minha transcendental rejeição, quase morei em Recife e já estive lá umas 10 vezes. Os mais ousados irão dizer: amor e ódio! Não, no meu caso é a insistência de Deus em me sacanear.
Aos recifenses desavisados que chegarem até aqui, não se importem com o que escrevo. Isso é apenas uma birrinha com um fundo de verdade. Todo mundo tem que ter uma cidade para amar e odiar. Escolhi Recife pela proximidade geográfica e também porque adoro competições tolas que não levam a lugar nenhum.
Posto isso, fui essa semana ver o show da famosíssima Sweet Fanny Adams. Digo famosíssima porque eles já foram selecionados para diversas coletâneas, embora nunca tenha ouvido falar de nenhuma deles. Eles foram inclusive selecionados pela Ultimate Billboard Top Mega Awards e venceram o Massachusetts Fabulous Choice. Com tantos prêmios e reconhecimento internacional não sei o porquê da banda continuar na pequena Recife.
Seria muito simplista acusá-los de apropriação do passado. Eu como um incipiente estudioso das relações passado-presente na arte não poderia cair nessa vala comum. Foda-se se cada música deles lembra alguma outra coisa que nós já tenhamos ouvido. Problema nosso.
Mesmo cantando em inglês a banda mantém suas raízes nordestinas. O que pode ser percebido nas camisas xadrez que eles usam, típicas das tradicionais festas juninas. Digna de nota é também a perfeita chapinha do vocalista. Obra de um cabeleireiro muito inspirado.
Pronto. O Sweet Fanny Adams se juntou ao Cordel do Fogo Encantado e Nação Zumbi dentro da categoria “Coisas de Recife que valem à pena”. E quando eles voltarem aqui, lá estarei eu pulando. Mesmo sem entender uma linha do que o vocalista canta em seu inglês britânico de Sobral. Mas quem se importa? Tem gente que não entende nada que o Catatau canta....
PS: Sim, eu sei que o Cordel não é uma banda de Recife.
Minha confiança em cineastas não costuma durar muito tempo. Talvez isso seja fruto de minha pouca capacidade de criar laços afetivos com qualquer coisa. Minha entrega inicial logo se transforma em decepção sem volta.
Quase toda a cinematografia de Aronofsky parece fruto de cálculos matemáticos precisos. E embora a racionalidade esteja sempre em maior evidência, diante de suas obras ainda somos colocados dentro de um jogo de sensações nada exatas.
Pi talvez seja uma metáfora sobre a própria carreira do diretor. Um alucinado perfeccionista, detalhista e obsessivo em busca de uma fórmula que explique a vida. No caso de Aronofsky, a busca pelo cinema milimetricamente perfeito.
A fórmula de Darren Aronofsky é arriscada. Uma dose mínima que extrapole o estabelecido na tabela pode causar erros detestáveis: A Fonte da Vida. No entanto, quando todos os ingredientes são adicionados precisamente, temos o cinema matemático e perfeito de O Lutador.
Alguns podem odiar o filme, mas poucos conseguirão apontar o porquê. Os defeitos talvez estejam lá, mas pouco visíveis. Aronofsky consegue criar uma obra que não é perfeita, mas que não deixa seus erros e equívocos perceptíveis. Tudo está colocado em seu lugar: luz, câmera (as movimentações mais delicadas de sua filmografia), trilha sonora, atuações, edição. Não conseguiria apontar um só defeito.
A câmera, quase sempre na mão, só sai de sua discrição quando as lutas exigem uma agressividade um pouco maior nos planos. O que pouco acontece. E como é belo o "contra-luz" de Aronofsky. Como é bela a canção de Bruce Springsteen...
Sei que não é o seu melhor trabalho, mas não sei os motivos que o coloca inferior a Pi, por exemplo. Continuo confiando em Darren, embora o meu ímpeto de descrédito e desprezo sempre entre comigo na sala de cinema quando vou assistir qualquer obra sua. Maldito Aronofsky!
Livros nunca foram referências para a formação do meu pensamento. Em uma escala de fontes de informação, o livro deve ocupar o terceiro ou quarto lugar. O motivo é simples: não gosto de ler. E não tenho vergonha ou pudor de dizer isso. Quando eu era criança e não conseguia ler os livros que o colégio receitava eu me sentia um imbecil. Quase sempre questionava: por qual motivo não pedem para ver um desenho animado? Não consigo me concentrar nas palavras e não me sinto emocionalmente envolvido. A imagem sempre foi meu maior foco de interesse. E não me venham dizer que livros também são visuais...Claro que essa minha birra com livros compromete minha escrita e leitura. Até hoje sou péssimo com as regras gramaticais. Nunca sei onde colocar uma vírgula. Porém, não me sinto defasado intelectualmente com relação a uma criatura que devora 8 livros por mês. Estou muito satisfeito com o conhecimento adquirido no cinema, na música e na Internet.
Escrevi tudo isso para finalmente falar bem de um livro (!). Quando estamos no campo acadêmico você tem apenas uma opção: ler os livros. Sendo assim, faço um esforço descomunal para ler um ou dois títulos de grandes teóricos. Dou meu jeitinho lendo mais artigos do que obras completas, mas ainda assim é um processo doloroso.
Nessa luta contra os livros, cheguei até “O fim da história da arte”. Hans Belting fica na linha tênue que separa os teóricos picaretas e exagerados dos teóricos geniais e provocadores. Belting me fez ter tantas dores de cabeça nesses últimos dias como nenhum teórico causou. Se eu já tinha os meus questionamentos raquíticos e sem fundamentação sobre a história da arte, o cara conseguiu trazer ainda mais problema para os dois lados do meu cérebro. Belting não tem o academicismo exacerbado de Argan, nem a chatice metódica de Gombrich.
O autor critica museus, historiadores, público, artistas e ele mesmo. Tudo com uma dose cavalar de veneno e excesso. Sempre gostei de teóricos catastróficos e exagerados. Acredito que através de um pensamento que extrapola os limites do plausível podemos chegar a um conceito e idéias razoáveis.
No caso da história da arte, em que tanta gente já falou tanta coisa sem novidade, Hans Belting é uma benção, sacudindo toda a instituição artística. E se alguém sair da leitura de “O fim da história da arte” sem pelo menos uma ou duas pulgas atrás da orelha, faça como eu: esqueça os livros e vá ao cinema.
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Segundo o Wikipedia, Fortaleza tem 313,8 km² de área e 2.473.614 habitantes. Um erro. Na verdade, a população de Fortaleza não passa de 250 pessoas e sua área não deve ser maior do que poucos 20 km². Eu, por exemplo, encontro sempre com as mesmas pessoas no meu ônibus e meu limite territorial não passa de um corredor que liga a minha casa ao Benfica. Ou seja, nossa cidade é um vilarejo, quiçá um condado.
Porém, não estou aqui para contestar os dados imprecisos do IBGE. Estou aqui para fazer um mapeamento (utilizando meus dados imparciais) dos grupos ideológicos existentes em nossa nanica cidadezinha (assim, bem pequenininha).
Divido a cidade em 5 grupos muito bem definidos: Aquele-povo-que-usa-sandália-de-couro, Aquele-povo-que-pensa-que-mora-em-londres, Aquele-povo-que-vai-pra-balada, Aquele-povo-que-não-frequenta-a-regional-2, Aquele-que-está-em-todos-os-lugares.
De hoje em diante, cada post virá com a descrição de um dos grupos. Hoje vamos começar por...
Aquele-povo-que-usa-sandália-de-couro
Onde encontrar: No centro de humanidades de qualquer universidade pública, em um “bar derrubado” (mas não um bar derrubado da periferia. Tem que ser ali pelo Benfica ou adjacências. Sabe como é... a periferia é tão longe...) ou em uma festa com cultura nordestina de raiz.
Do que gosta: Chico Buarque na terra e no céu, uma coisa MPB assim anos 70 – Gal, Bethânia, uma coisa MPB assim bem cult – Tereza Cristina ou Oswaldo Montenegro, uma banda de pífano do Juazeiro, qualquer banda com sotaque de Juazeiro, qualquer grupo artístico que tenha as palavras “trupe”, “brincantes” ou “cordão”.
Programa favorito: Fazer uma ciranda bem bonita com gente de todas as cores, todos os credos...
Diálogo:
- Bob? - Quem? O Marley? - Tu curte? - Prefiro Zé Ramalho - Bóra comprar um vinho? - Eu vou é fumar um gudang...
Que banda chata é essa “Cérebro Eletrônico”? E lá estão os jornalistas culturais querendo transformar eles na nova coisa mais cult do mundo. “A substituta do Los Hermanos”. Eles são muito inventivos e usam brinquedos para produzir sons em algumas canções – Nossa! Que criativo! São os novos Beatles...Jesus, deviam trancar eles e o Teatro Mágico em um quarto por toda a eternidade. Deixar eles discutindo quem é a banda mais cool, intelectual, bacaninha e chata do país. Deviam colocar a banda do Junior Lima para tocar lá dentro. Talvez eles se matassem em uma ou duas semanas.
Hoje estou com ódio de nada. E não existe nada pior do que odiar quando não há ninguém ou nada para culpar.
Prometo voltar mais feliz da próxima vez. Vou comer muito chocolate antes de escrever qualquer coisa.
Se você conseguiu ler tudo que eu escrevi até aqui, PARABÉNS! Você deve ser uma dessas pessoas normais que adora ler livros ou simplesmente não tem nada melhor para fazer. Será que alguém anda nesse blog?
Esse texto necessitou de um esforço duplo para ser feito. Primeiro, o esforço sobre-humano para conseguir escrever poucas linhas. Poucas, mas proveitosas linhas. Segundo, para conseguir resgatar da minha memória rasa algumas lembranças do filme Escafandro e a Borboleta. Lembro-me que imediatamente ao sair do cinema, pensei em uma série de questões que gostaria de levantar. Uma série de impressões que deveria compartilhar. Não existem mais. Elas se foram. De repente comecei a raciocinar que não guardo imagens por muito tempo. Sei que um filme me tocou de alguma forma, mas quase sempre não me recordo o porquê. Não guardo sinopses, não guardo nomes de personagens, não guardo desfechos. No entanto, a experiência de ter visto uma obra espetacular continua em meu cérebro. Se perguntarem se gostei de tal filme, respondo com a convicção daqueles que poderiam fazer uma análise técnica com precisão. Falo baseado em sentimentos. Veja bem, não estou fazendo juízo de valor entre as duas coisas. Faço isso por uma deficiência biológica, não por opção.
Os filmes depois de vistos formam uma imagem anômala, disforme e indescritível na minha cabeça. Essa é lembrança que tenho deles. Nada e ao mesmo tempo tudo. Minha visão de um filme é comparável a uma câmera subjetiva. E era sobre isso que gostaria de comentar. Sobre câmeras.
Há uma polêmica no meio acadêmico sobre o conceito de Câmera Subjetiva e Câmera Ponto-de-vista. Para a grande maioria de estudiosos desocupados, a câmera ponto-de-vista é aquela que apresenta a visão da personagem, uma câmera-olho. Já a câmera subjetiva, seria aquela ligada à visão onírica, do plano do sonho.
Interessante perceber como um filme (com um pouco mais de uma hora e meia) pode colocar abaixo teorias quase inquestionáveis. Na produção de Julian Schnabel temos um homem que perde quase todos os movimentos do corpo após um derrame. Um de seus olhos é costurado e o outro serve mais como um veículo de comunicação do que como um órgão responsável pela visão. Digo isso porque Jean-Dominique Bauby não se limita ao seu único olho para ver o mundo.
Durante quase metade da produção a câmera é posicionada como sendo o olho da personagem principal, ela desfoca quando o olho desfoca, ela se fecha quando o olho se fecha. Temos aqui (teoricamente) uma típica câmera ponto-de-vista.
Em outros momentos, Bauby passei pelo hospital e participa de um jantar maluco. Uma câmera subjetiva, naturalmente.
Porém, aqui coloco um pertinente questionamento: considerando o contexto do filme, não seria a câmera subjetiva a própria visão da personagem. Não teria após o choque traumático pelo qual passou, criado um outro universo com o qual poderia intervir, dialogar e agir? Como o conceito de real pode ser tratado nessa obra e nessa situação? Alguém teria coragem ou a arrogância de falar para Bauby que aquele jantar era uma farsa e que o mundo real era na verdade aquele seu pequeno e limitado campo de visão?
Aquela seqüência do jantar, em que uma câmera convencional (um plano convencional) filma uma “alucinação” de Bauby em um jantar lascivo ao lado de uma bela mulher é na verdade uma câmera ponto-de-vista. Apesar da câmera não estar posta no lugar do olho da personagem e embora essa seqüência esteja dentro do plano da alucinação (isso do nosso ponto-de-vista).
Da mesma forma, quando temos um passeio de Bauby pelos corredores do hospital, estamos diante novamente de câmera ponto-de-vista, agora com uma câmera posicionada na mesma direção do olhar da personagem.
Escafandro e a Borboleta é um filme tão complexo que não me deixa colocar um fim ao meu raciocínio. Nesse exato momento em que escrevo “nesse exato momento” está passando pela minha cabeça uma série de dúvidas sobre essa coisa do olhar no cinema. Eu prefiro acabar aqui antes que eu tenha um colapso mental.
PS1: A cena do passeio de Bauby pelos corredores do hospital não seria uma homenagem à obra de Aleksandr Sokurov, Arca Russa? Aquelas personagens de épocas diferentes passeando em um único espaço?
PS2: Como vocês puderam perceber, não consegui escrever poucas e proveitosas linhas. Tento novamente na próxima vez.
Nunca me senti tentado a freqüentar a “cena” de Fortaleza e nunca me interessei em andar em lugares descolados da minha cidade. Até fui algumas vezes ao Noise 3D, meio por acidente, mas nunca levei aquelas crianças e adolescentes a sério. Aqueles seres sempre me pareceram um bando de gente fantasiada de ingleses toscos. Veja bem, somos uma cidade tão ensolarada...
Não conseguiria fazer um top 5 com minhas bandas cearenses preferidas porque não existem 5 bandas preferidas para completar a lista. Na verdade nunca parei para pensar quais bandas estariam nela. Mas (eu disse “mas”), se algum dia eu fosse compelido a elaborar tal classificação, a primeira coisa que sairia da minha boca seria “Café Colômbia”.
Eu nem sei se a Café Colômbia é a melhor banda do nosso estado. Até acho eles cheios de defeitos, mas acredito que eles sejam a única banda cearense a mexer em algumas engrenagens em meu cérebro que algumas pessoas costumam chamar de “sentimentos”.
Acompanho o trabalho deles desde 2005, já fui a 5 ou 6 shows e sempre que posso faço um marketing viral com os amigos. Ou seja, a Café Colômbia é meu Radiohead, o meu Strokes e o meu Cafe Tacuba no Ceará.
Esse mês eles lançaram o primeiro CD. Desde 2005 que escuto essa história de lançamento do primeiro álbum. Já faz tanto tempo isso que eles nem imaginaram que em 2008 essa coisa de CD estivesse tão fora de moda. Eu não vou comprar porque sou uma pessoa hiper moderna. Até compraria, mas o sistema de distribuição é tão complicado que me dá preguiça. Então fiz um bom e velho download. O pacote vem com a capa (?) do CD e uma foto de 3 anos atrás em que o Felipe foi apagado no Photoshop. A Café é realmente uma banda retrô...
Não entendi o porquê da mudança do título do álbum. O que diabos aconteceu com “Poesia de Araque”? Era um título tão inspirador e cheio de psicologia reversa...Digo cheio de psicologia reversa porque a banda sabe que possui as melhores letras do circuito.
De volta ao meu “álbum” baixado, um pequeno trecho autodescritivo da banda retirado do release:
“O pretexto à inspiração é corriqueiro: um amigo "despadronizado", amores de terceiros, os próprios sentimentos. A sonoridade bebe na essência do rock e de guitarras distorcidas, com letras em português. Café Colômbia há de oferecer versões da realidade de crenças vulneráveis. Da simplicidade da vida, uma conexão à sensibilidade. Sem mais.”
Ok, oferecer uma versão da realidade das crenças vulneráveis e ao mesmo tempo promover uma conexão à sensibilidade é coisa demais para uma banda que lança o primeiro CD. No entanto, a parte mais significativa é aquela que finaliza: “Sem mais”. Diz tudo. A Café Colômbia é uma trama de sentimentos agridoces, mas sem frescura. Sem mais. Capaz de cenas românticas, palavras tolas ditas ao pôr do sol ou andar descalço sorrindo pra todo mundo.
O som da banda não é muito rebuscado, com muitas camadas. É guitarra, baixo e bateria. Isso incomoda às vezes. Parece-me que muitas canções poderiam ter sido um pouco mais trabalhadas, com arranjos não tão básicos. Talvez esse não fosse o objetivo, como disse, a Café não é uma banda cheia de frescuras. Os vocais também poderiam ser melhores. Aula de canto é sempre uma boa opção. A questão não é cantar perfeitamente bem, mas saber usar a voz da melhor forma.
Destaques:
Paciência Não: talvez a melhor letra. Glória: a música sobre futebol que o Skank nunca teria coragem de fazer. Sereneo: a letra parece coisa do Nando Reis. Se fosse dele seria irritante. Com a Café fica tudo lindo, colorido, “vamos sair por aí sorrindo”, Uhuu, lá, lá, lá, ié, ié! Descanso: isso me lembra aquelas vinhetas dos Cd’s do Oasis...Procura: A mais bela se não fosse.... Automotiva: A melhor música cearense que ouvi na minha curta vida. “Todo amor termina com um coração que se parte”. Eu acrescentaria: “Todo amor termina com uma conta bancária que se reparte”. A mesma: a melhor música que não está no CD.
É isso. Café Colômbia é tipo o Sonic Youth mais sóbrio conversando com um Radiohead mais risonho sobre algumas amenidades da vida. Sem mais.
Confesso que desconheço a filmografia de Sidney Lumet, o que se configurou um grande erro após a apreciação de “Antes que o diabo saiba que você está morto”. Talvez, entrar na sala de cinema virgem de qualquer referência estética sobre a obra desse cineasta, tenha feito a experiência de ver ao seu mais recente filme algo ainda mais instigante. Uma busca por traços artísticos e de personalidade em uma película, aquela fissura que separam os diretores criadores dos diretores burocratas.
Hollywood se especializou em criar tramas mirabolantes sobre assaltos. Um gênero menor, mas ainda assim com suas regras estabelecidas. Geralmente a trama se resume ao seguinte: inicialmente, acompanhamos a preparação do roubo e a planejamento das estratégias. Posteriormente, somos apresentados ao assalto com todos os imprevistos já previstos. Por fim, no quase final, quando acreditamos ter chegado ao desfecho, uma grande virada dramática, um final surpresa. Tudo para os adolescentes saírem das salas de cinema tentando costurar as pistas e se sentirem mais inteligentes do que geralmente são. Sempre alguém diz: “Eu já sabia!”
Na obra de Lumet não temos um plano mirabolante, não temos reviravoltas surpresas, tampouco o roubo é o grande destaque. A cena do tal assalto dura apenas alguns minutos e se desenvolve de forma simples. Daí vem a genialidade de Lumet, a partir de uma seqüência tola, desenvolver um filme que caminha para um desastre de proporções colossais, maior do que qualquer roubo à Cassinos.
Gosto de filmes que trabalham com a idéia do efeito borboleta ou efeito dominó. Pequenas ações que causam conseqüências catastróficas. Gosto de ver as personagens perdidas, desesperadas, sem saída. Alejandro González Iñárritu se especializou nisso. Pelo menos até ele fazer o “fora do ponto” Babel. Os cachorros de Amores Brutos são ainda inesquecíveis.
Em “Antes que o diabo...” (Ok, esse título é bacana, mas chato para escrever), Lumet prefere reviravoltas psicológicas. O que interessa ao cineasta é mostrar que o pequeno ato (o roubo) poderia ter motivações inimagináveis e conseqüências ainda mais imprevisíveis. O cineasta opta por um jogo de ir e voltar no tempo. Algo que em um filme de Tarantino seria apenas uma “forçação de barra” barata para imprimir uma assinatura estilística. Lumet utiliza esse recurso de retalhos temporais para deixar o espectador perdido, ansioso e impotente, assim como suas personagens. Da mesma forma, um rede de figuras dramáticas vai pouco a pouco surgindo. O eixo da trama que parecia inicialmente restrito aos dois protagonistas vai aumentando à medida que mais um trecho da história é apresentado. O diretor opta por apresentar cada segmento sob o ponto de vista de cada uma das personagens. Lumet nos torna cúmplices delas. Em um instante só acompanhamos e temos consciência dos atos de Andy para só em um outro instante sabermos as reações e ações de Hank.
Mas “Antes que o diabo saiba....” não seria o que é sem a sua dupla de protagonistas. Philip Seymour Hoffman parece fazer mais uma daquelas suas interpretações sobrenaturais. Saindo de um aparente equilíbrio para um homem totalmente desestabilizado emocionalmente. Ethan Hawke perfeito no papel de um adulto irresponsável, inseguro e fracassado. Ponto negativo para Marisa Tomei. Perto da dupla, Marisa parece uma atriz iniciante, incapaz de um olhar, um sorriso, um gesto tocante. Só não é um desastre porque Gina talvez seja exatamente como uma interpretação de Marisa: apática.
De equívocos, apontaria a trilha sonora pouco inspirada e um erro no último ato relacionado à regra criada pelo próprio Lumet. Apesar de apontar o último trecho como sendo o ponto de vista da personagem de Albert Finney, Charles, somos apresentados a seqüências sem a presença dessa personagem e sob pontos de vista de outras. Nada que incomode.
Lumet é um maestro. A sutiliza da fotografia que a cada ponto de vista posiciona a câmera próxima da personagem focada, como se a tornasse cúmplice, a subversão de um gênero e direção de elenco, provam que o cineasta consegue deixar sua alma na obra. Algo pouco comum.